sábado, 28 de janeiro de 2012

CONTRIÇÃO



Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel das paixões que me arrastava;
Ah! cego, eu cria, ah! mísero, eu pensava
 
Em mim quase imortal a essência humana.

De que inúmeros sóis a mente ufana
A existência falaz me não doirava!
Mas eis sucumbe a natureza escrava
Ao mal que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.

Deus, ó Deus! Quando a morte a luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.

                        Manuel Maria Barbosa du Bocage

domingo, 22 de janeiro de 2012

Traições indecorosas

Todas as traições indecorosas                                                
Que dizes que cometo sem-vergonha
São boatos venenosos, são peçonha
De cobras jararacas invejosas

Mulheres frias, muito mal-amadas
Autoras de calúnias horrorosas
Irmandade de bruxas pavorosas
Perdidas em virtudes depravadas

Não ouças tais conselhos, tais bravatas
São armadilhas de dor e solidão
Lançadas por beatas insensatas

Acredita no prazer e na emoção
E evita sempre as conversas chatas
Dessas ratas fofoqueiras de plantão


                                                          Elieser Rufino - 2010

                                                 

domingo, 15 de janeiro de 2012

EN LUGAR DEL AMOR

Siempre, más allá de tus hombros veo al mundo.
Chispea bajo los temporales.
Es un pedazo de madera podrida, un farol viejo
que alguien menea como a contracorriente.
El mundo que nuestros cuerpos
(que nuestra soledad) no pueden abolir,
un siglo de zapadores y hombres
ranas debajo de tu almohada,
en el lugar en que tus hombros
se hacen más tibios y más frágiles.
Siempre, más allá de tus hombros
(es algo que ya nunca podremos evitar)
hay una lista de desaparecidos,
hay una aldea destruida,
hay un niño que tiembla.


Heberto Padilla

sábado, 7 de janeiro de 2012

Dois corações

Quisera ter dois corações, quisera,
Que dividisse esse meu sofrimento,
Ter uma parte de verão cinzento,
E a outra parte plena primavera;

Que um gritasse, num rugir de fera,
De uma paixão o eternal tormento,
Enquanto outro, num tom sonolento,
Calmo aceitasse angustiante espera;

Que um agitado decantasse em versos
Tais pensamentos tacanhos, perversos,
Que o manto ostentam de certa traição...

Enquanto o outro conformado, altivo,
Consciente fosse, qual ser que está vivo,
Que tudo passa... que é tudo ilusão...

                                         Jose Riomar de Melo

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Curvas do corpo


A curva das tuas ancas me excita
Os bicos dos teus peitos arretados
No espelho são reflexos dourados
De um desejo profano que palpita

Flutua tua sombra toda nua
A cortina dos cabelos ocultando
O fogo dos teus olhos me queimando
Teus dentes me mordendo a carne crua

Procuro igualar-me ao teu balanço
Sintonia no ardor entrelaçado
Ouvindo a confissão das tuas propostas

Aperto tua cintura num abraço
Na curva das tuas ancas agarrado
Desmaio de amor nas tuas costas!


                                 Elieser Rufino - 2010

MELANCOLIA DE JASÃO, FILHO DE CLEANDRO, POETA EM COMAGENA, 595 D.C.


O envelhecimento do meu corpo, do meu rosto
É a ferida de um punhal terrível.
Como não tenho resignação nenhuma,
recorro a ti, oh Arte da Poesia,
que algo sabes de remédios,
na tentativa de embotar a dor com Fantasia e Verbo.

É a ferida de um punhal terrível. –
Dá-me dos teus remédios, Arte da Poesia,
que me fazem – um instante – não sentir a ferida. 

                                                                 Konstantinos Kaváfis

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Cantiga sua partindo-se


Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

Tão tristes, tão saudosos,

tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
Partem tão tristes os tristes,
tão fora d' esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

                                
Joam Roiz de Castel-Branco - Cancioneiro Geral