quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Tem Quem Queira


                                Composição: Antônio Vieira
Amigo, se andas triste
Vai para uma brincadeira
Se tu não quer
Tem quem queira
 
Se é por falta por de dinheiro
Te dou trabalho na feira
Se tu não quer
Tem quem queira

Se o teu caso é mulher
Tem a Maria Moreira
Se tu não quer
Tem quem queira  

Ela gosta é de ti
E é uma mulata faceira
Se tu não quer
Tem quem queira

Se te dou esse conselho
É pra tu sair dessa asneira
Se tu não quer
Tem quem queira  

O amor é muito bonito
E ele não tem pasmaceira
Se tu não quer
Tem quem queira

Portanto não bota fora
A tua alegria brejeira
Se tu não quer
Tem quem queira 

Vai gozar a tua vida
Que ela é breve e passageira
Se tu não quer
Tem quem queira (...)

Belém, 1971


as mais altas
pareciam um gato miando –
miiaauuuu, miiaaauuuu
as mais baixas cortavam as folhas
e os talos do capim –
ttrrrr, ttrrrr, ttrrrr

era difícil correr no chavascal
segurando um pato vivo
era também engraçado
primeiro ouvir a bala
e depois ouvir o tiro

corri contando até seis
esperando acabar as balas
do revólver do 'freguês'

depois levantei a cabeça
passei pelo buraco da cerca
e escapei pela rua a pé
eu tinha me arriscado
mas tava bem agarrado
o pato no tucupi
do Círio de Nazaré.


                          Elieser Rufino – 2011

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Das Pessoas que Atingem Posições Elevadas


 Das pessoas que atingem posições elevadas,
cerimônias, riqueza, erudição, e similares:
para mim tudo isso a que chegam tais pessoas
afunda diante delas — a não ser quando acrescenta
um resultado qualquer para seus corpos e almas —
de modo que elas muitas vezes me parecem
desajeitadas e nuas, e para mim
uma está sempre zombando das outras
e a zombar dele mesmo ou dela mesma,
e o cerne da vida de cada qual
(a que se dá o nome de felicidade)
está cheio de pútrido excremento de larvas,
e para mim muitas vezes esses homens e mulheres
passam sem testemunhar as verdades da vida
e andam correndo atrás de coisas falsas,
e para mim são muitas vezes pessoas
que pautam as suas vidas por um hábito
que a elas foi imposto, e nada mais,
e para mim é gente triste muitas vezes,
gente afobada, estremunhados sonâmbulos
tateando no escuro.

                                             Walt Whitman, in "Leaves of Grass"

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Apenas um pouquinho


                                              
Gosto de ti apenas um pouquinho
Pois todo gostar não é constante
É somente um fracasso delirante
Um palpitar de amor pelo caminho

Assim, não me atormentes cada instante
Em busca de amor e de carinho
Ou provas da verdade importante
Do sentimento que dizes mesquinho

Te amo tanto quanto tu permites
Rebelde no prazer que ignoras
Fantasia fatal na qual persistes

Em cobrar-me assim tantas penhoras.
Te quero apenas quando necessites
Do engano feliz que tu adoras.

                                              Elieser Rufino - 2011

sábado, 29 de outubro de 2011

Boa Vista, dezembro, 1953.



o rio secando
cardume de matrinchã
no baixio da praia
o boto ataca
revoada de peixes
subindo o rio
subindo a rua
barrancos ladeiras
caminhos do verão quente
por todos os lados
o cheiro dos cajueiros



                          Elieser Rufino – 2005

Insônia

                

carapanãs rondam insistentes
o mosquiteiro
exasperados grilos
anunciam seu cio noturno
morcegos farfalham
versos brancos de papel

lua de inverno
esquenta a solidão suada
desta noite de insônia


                                 Elieser Rufino
                                  

domingo, 23 de outubro de 2011

"DEUS PERDOA, EU NÃO"

... proclamava vingativa
a tatuagem
no braço do mercenário português
vindo de Angola.

sábado, 22 de outubro de 2011

Nocturno

                                      Antero de Quental  


"Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...

Como um canto longínquo – triste e lento –
Que voga e subtilmente se insinua,
Sobre o meu coração, que tumultua,
Tu vertes pouco a pouco o esquecimento...

A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Gênio da Noite, e mais ninguém!"

QUEIXA-SE O POETA EM QUE O MUNDO VAY ERRADO, E QUERENDO EMENDÂLO O TEM POR EMPREZA DIFFICULTOSA.


 Gregório de Mattos
 
Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.
 
  O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ornadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.
 
  Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir, que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.
 
  O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo o mar de enganos
Ser louco cos demais, que ser sisudo.


Calçadas do centro da cidade


Toscas calçadas de cimento
Alinham-se no centro da cidade
Caminhos de constante movimento
Cheios de gente, de curiosidade

Camelôs oferecem a cada instante
Bugigangas de baixa qualidade
Uma buzina toca impertinente
Calor de sol e muita claridade.

Andando nestas ruas, nesta praça
Tão cheias de passado e de história
Te sentes solitário em meio à gente

Teus passos já não têm a mesma graça
E as lembranças, tão vivas na memória,
São vultos que povoam teu presente.


                             Elieser Rufino - 2011

sexta-feira, 21 de outubro de 2011