sábado, 29 de outubro de 2011

Boa Vista, dezembro, 1953.



o rio secando
cardume de matrinchã
no baixio da praia
o boto ataca
revoada de peixes
subindo o rio
subindo a rua
barrancos ladeiras
caminhos do verão quente
por todos os lados
o cheiro dos cajueiros



                          Elieser Rufino – 2005

Insônia

                

carapanãs rondam insistentes
o mosquiteiro
exasperados grilos
anunciam seu cio noturno
morcegos farfalham
versos brancos de papel

lua de inverno
esquenta a solidão suada
desta noite de insônia


                                 Elieser Rufino
                                  

domingo, 23 de outubro de 2011

"DEUS PERDOA, EU NÃO"

... proclamava vingativa
a tatuagem
no braço do mercenário português
vindo de Angola.

sábado, 22 de outubro de 2011

Nocturno

                                      Antero de Quental  


"Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...

Como um canto longínquo – triste e lento –
Que voga e subtilmente se insinua,
Sobre o meu coração, que tumultua,
Tu vertes pouco a pouco o esquecimento...

A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Gênio da Noite, e mais ninguém!"

QUEIXA-SE O POETA EM QUE O MUNDO VAY ERRADO, E QUERENDO EMENDÂLO O TEM POR EMPREZA DIFFICULTOSA.


 Gregório de Mattos
 
Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.
 
  O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ornadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.
 
  Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir, que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.
 
  O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo o mar de enganos
Ser louco cos demais, que ser sisudo.


Calçadas do centro da cidade


Toscas calçadas de cimento
Alinham-se no centro da cidade
Caminhos de constante movimento
Cheios de gente, de curiosidade

Camelôs oferecem a cada instante
Bugigangas de baixa qualidade
Uma buzina toca impertinente
Calor de sol e muita claridade.

Andando nestas ruas, nesta praça
Tão cheias de passado e de história
Te sentes solitário em meio à gente

Teus passos já não têm a mesma graça
E as lembranças, tão vivas na memória,
São vultos que povoam teu presente.


                             Elieser Rufino - 2011

sexta-feira, 21 de outubro de 2011