quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Curvas do corpo


A curva das tuas ancas me excita
Os bicos dos teus peitos arretados
No espelho são reflexos dourados
De um desejo profano que palpita

Flutua tua sombra toda nua
A cortina dos cabelos ocultando
O fogo dos teus olhos me queimando
Teus dentes me mordendo a carne crua

Procuro igualar-me ao teu balanço
Sintonia no ardor entrelaçado
Ouvindo a confissão das tuas propostas

Aperto tua cintura num abraço
Na curva das tuas ancas agarrado
Desmaio de amor nas tuas costas!


                                 Elieser Rufino - 2010

MELANCOLIA DE JASÃO, FILHO DE CLEANDRO, POETA EM COMAGENA, 595 D.C.


O envelhecimento do meu corpo, do meu rosto
É a ferida de um punhal terrível.
Como não tenho resignação nenhuma,
recorro a ti, oh Arte da Poesia,
que algo sabes de remédios,
na tentativa de embotar a dor com Fantasia e Verbo.

É a ferida de um punhal terrível. –
Dá-me dos teus remédios, Arte da Poesia,
que me fazem – um instante – não sentir a ferida. 

                                                                 Konstantinos Kaváfis

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Cantiga sua partindo-se


Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

Tão tristes, tão saudosos,

tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
Partem tão tristes os tristes,
tão fora d' esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

                                
Joam Roiz de Castel-Branco - Cancioneiro Geral

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Tem Quem Queira


                                Composição: Antônio Vieira
Amigo, se andas triste
Vai para uma brincadeira
Se tu não quer
Tem quem queira
 
Se é por falta por de dinheiro
Te dou trabalho na feira
Se tu não quer
Tem quem queira

Se o teu caso é mulher
Tem a Maria Moreira
Se tu não quer
Tem quem queira  

Ela gosta é de ti
E é uma mulata faceira
Se tu não quer
Tem quem queira

Se te dou esse conselho
É pra tu sair dessa asneira
Se tu não quer
Tem quem queira  

O amor é muito bonito
E ele não tem pasmaceira
Se tu não quer
Tem quem queira

Portanto não bota fora
A tua alegria brejeira
Se tu não quer
Tem quem queira 

Vai gozar a tua vida
Que ela é breve e passageira
Se tu não quer
Tem quem queira (...)

Belém, 1971


as mais altas
pareciam um gato miando –
miiaauuuu, miiaaauuuu
as mais baixas cortavam as folhas
e os talos do capim –
ttrrrr, ttrrrr, ttrrrr

era difícil correr no chavascal
segurando um pato vivo
era também engraçado
primeiro ouvir a bala
e depois ouvir o tiro

corri contando até seis
esperando acabar as balas
do revólver do 'freguês'

depois levantei a cabeça
passei pelo buraco da cerca
e escapei pela rua a pé
eu tinha me arriscado
mas tava bem agarrado
o pato no tucupi
do Círio de Nazaré.


                          Elieser Rufino – 2011

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Das Pessoas que Atingem Posições Elevadas


 Das pessoas que atingem posições elevadas,
cerimônias, riqueza, erudição, e similares:
para mim tudo isso a que chegam tais pessoas
afunda diante delas — a não ser quando acrescenta
um resultado qualquer para seus corpos e almas —
de modo que elas muitas vezes me parecem
desajeitadas e nuas, e para mim
uma está sempre zombando das outras
e a zombar dele mesmo ou dela mesma,
e o cerne da vida de cada qual
(a que se dá o nome de felicidade)
está cheio de pútrido excremento de larvas,
e para mim muitas vezes esses homens e mulheres
passam sem testemunhar as verdades da vida
e andam correndo atrás de coisas falsas,
e para mim são muitas vezes pessoas
que pautam as suas vidas por um hábito
que a elas foi imposto, e nada mais,
e para mim é gente triste muitas vezes,
gente afobada, estremunhados sonâmbulos
tateando no escuro.

                                             Walt Whitman, in "Leaves of Grass"

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Apenas um pouquinho


                                              
Gosto de ti apenas um pouquinho
Pois todo gostar não é constante
É somente um fracasso delirante
Um palpitar de amor pelo caminho

Assim, não me atormentes cada instante
Em busca de amor e de carinho
Ou provas da verdade importante
Do sentimento que dizes mesquinho

Te amo tanto quanto tu permites
Rebelde no prazer que ignoras
Fantasia fatal na qual persistes

Em cobrar-me assim tantas penhoras.
Te quero apenas quando necessites
Do engano feliz que tu adoras.

                                              Elieser Rufino - 2011